Quem sou eu?

A minha fotografia

Anteriormente conhecida como v_crazy_girl, a 30 de Agosto de 2014 essa conta foi apagada, tendo assim decidido criar algo mais pessoal e próprio para o blogue literário de longa data.

Na Mesa de Cabeceira...

Na Mesa de Cabeceira...
"A Química do Amor" de Emily Foster

Passatempo

Passatempo
Até 24 de dezembro

Seguidores

Com tecnologia do Blogger.

Facebook

Arquivo do Blogue

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Fazia um voo baixo a uns dez metros do solo. Era engraçado ver a reacção das pessoas quando viam o meu disco voador aproximar-se. Alguns fugiam em pânico, outros apontavam para o céu com cara de espanto, outros ajoelhavam-se pensando que se tratava de uma manifestação divina.
Os frequentes rebanhos de animais que surgiam fugiam, com a aproximação da minha nave, para desespero dos seus pastores.
Não sabia ao certo em que tempo me encontrava, mas acho que recuei no tempo mais de mil anos e encontrava-me agora a voar algures sobre o Médio Oriente. Não estava muito preocupado com o onde e o quando. Apenas desfrutava a viagem.
Precisava de fugir à realidade, às mágoas do arrependimento e ao sofrimento que me impingiram. Por isso desejei uma máquina do tempo, para poder recuar atrás e corrigir os erros do meu passado. Então, uma noite, acordei sobressaltado com luzes na janela. Levantei-me rapidamente num misto de medo e adrenalina. Seria um assalto? Pensei. Segurei numa faca de cozinha e corri para a porta de entrada.
Mas quando saí para fora lá estava ela. A máquina que tanto desejei, em forma de disco voador prateado. Ouvia-a falar comigo telepaticamente. Como se tivesse consciência própria e me conhecesse bem. Não senti medo, embora não soubesse como foi ali parar nem tão pouco de onde veio. Sabia apenas que era uma coisa de outro mundo e estava ali por mim.
O chamamento era tão forte que não hesitei em entrar. A nave era controlada pelo meu pensamento e por isso, apenas desejei partir. Era uma tecnologia fascinante, parecia que a minha mente se tinha fundido com a própria máquina. Perante a minha ordem levantou voo rumo a um destino longínquo. Não sei para onde. Apenas ordenei que fosse para longe. Assim foi. E desde então tenho vindo a vaguear por tempos e terras diferentes.
Dentro daquele disco voador tinha todas as comodidades de um apartamento de luxo. No centro do aparelho existia uma enorme sala de convívio, com um bar recheado de todo tipo de bebidas, sofás em toda a volta e um gigantesco ecrã que me dava acesso a todos os canais do mundo e à internet. Optei por não usar essas opções, decidi desligar-me mesmo da realidade.
Para descansar, existia um quarto fabuloso que metia inveja a qualquer suite presidencial de um hotel de cinco estrelas. Já a sala de comando era um local mais sério. Sem decorações refinadas, apenas com algumas poltronas onde as informações que a nave transmitia se tornavam mais técnicas. Estudei alguns mapas astrais com rotas para outros mundos. Era um conhecimento espantoso!
Cheguei a viajar até à lua. No entanto, o espaço tem tanto de belo como de assombroso. A vastidão das estrelas é demasiado solitária. Uma solidão tão forte e tão profunda que me assustou. Devido a isso não me aventurei a ir mais longe no cosmos. Voltei para a Terra.
Foi durante aquele voo rasante que o vi. No topo de um monte com o polegar levantado a pedir boleia. Assobiava de forma descontraída. Parecia uma personagem de uma comédia surreal.
A nave parecia conhecê-lo e ele parecia já estar à espera. Decidi então fazer o que a máquina queria. Parei e puxei o homem para dentro através de um raio de tracção que parecia saído de um filme de ficção científica.
Assim que entrou abriu os braços na minha direcção e curvou-se ligeiramente, como um actor que agradece os aplausos. Era uma figura bastante desleixada. Usava uma túnica já bastante gasta e suja. Era moreno, tinha o cabelo comprido e a barba por fazer. A higiene também deixava muito a desejar. Os olhos eram de um exagerado azul intenso, no entanto de uma beleza intensa e infinitamente profundos. Parecia que me hipnotizavam. O mendigo esboçou um sorriso aberto, tal como um velho amigo e abraçou-me.
– Jesus!? – Disse-lhe incrédulo.
– Que foi? Achas que exagerei no azul dos olhos? – Disse-me Ele, em tom gozão, enquanto colocava as suas mãos sobre os meus ombros.
Senti o corpo a ficar dormente. Creio que paralisei naquele momento possuído pelo temor, ou pela emoção… Não sei explicar. Apenas gelei, sem conseguir mexer-me ou falar. Então Jesus estalou os dedos e foi como um acordar para mim. Saí imediatamente do transe e respondi:
– Não é isso. Não estava à espera de Te encontrar... Tu és Jesus! És Deus! Que queres de mim? – Apesar o temor que sentia, existia algo de muito familiar nele. Estranhamente parecia que o conhecia desde sempre. Por isso tratei-O como um velho amigo.
– Não esperavas!? Típico. Era mesmo de prever. Então desejas uma máquina do tempo, ela aparece-te à porta e tu esqueces quem ta enviou! – Repreendeu-me Ele num tom áspero.
– Mas eu perdoo-te. – Respondeu-me logo de seguida retomando o sorriso, de quem estava a brincar.
– Foste Tu que ma enviaste? – Perguntei ainda incrédulo.
– Quem havia de ser! ET’s!? Fartei-me de te ver chorar a queixares-te da vida fechado em casa. Deixa que te diga que parecias uma menina mimada a lamuriar-se. Que espectáculo degradante. Devias ter vergonha.
Baixei a cabeça comprometido. De facto senti-me embaraçado perante aquela descrição.
Jesus, esse, dirigiu-se ao bar da nave e tirou uma cerveja fresca. Perguntou-me se também queria uma. Acenei-lhe que não e Ele continuou:
– Como disse, estava fartinho de te ver choramingar pelos cantos. Por isso, quando resolveste rezar-Me a implorar por uma máquina do tempo, achei no mínimo um pedido original. Por isso e para te calar, decidi enviar-te uma.
– Obrigado… – Respondi envergonhado.
– Só não percebi uma coisa. – Disse Ele enquanto se sentava descontraidamente na sala de comando a beber mais um gole de cerveja.
– O quê? – Perguntei enquanto me habituava à ideia de ter ali Jesus à minha frente. A confidenciarmos como dois amigos.
– Porque não voltaste atrás para mudares o teu passado, tal como desejaste e em vez disso, andaste por aí a passear no tempo?
A pergunta calou-me. Um certo cansaço caiu em cima de mim. Sinceramente não sabia o que responder…
– Não sei... Medo… Cobardia, talvez... É tudo muito confuso. Mas Tu já sabes a resposta, melhor do que eu. Sabes o que penso, o que vai na minha mente magoada, porque me perguntas? – Respondi-lhe como se estivesse numa mistura de consulta de psicólogo com uma confissão a um padre. Uma lágrima começou a escorrer-me pelo rosto e eu limpei-a com a manga.
De forma imprevisível Jesus deu uma gargalhada enorme e disse: – Bem respondido. Embora fujas à questão. Mas confesso que gostei da forma como andas a assustar pessoas com a nave.
Ri-me também. – Sim, tem piada. – Disse.
– Mas já te divertiste bastante. Não podes continuar assim. Está na altura de tomares uma decisão. – A expressão de Jesus mudou. Tornou-se séria, quase repreensiva. Como um pai que aconselha o filho. Senti os seus olhos a penetrar a minha alma. Então perguntou-me novamente: – Porque é que ainda não alteraste o teu passado?
– Tenho medo de reviver aquilo que me fez sofrer. Mesmo que altere o passado, vou-me lembrar de toda a dor que senti. – Respondi, enquanto mais lágrimas me escorriam pelo rosto.
Jesus colocou a mão sobre o meu ombro e esboçou um sorriso. Possivelmente o sorriso mais reconfortante que vi na vida. Pois demonstrou que me compreendia e não me condenava. O desabafo foi como se um peso me saísse das costas.
– Sabes. – Disse Ele, como um sábio que dá um conselho. Afinal de contas Ele era Jesus. Maior sábio não deve existir. – Quer queiramos, quer não, o sofrimento faz parte da vida. Mas também a alegria. E podes acreditar em mim quando digo que há mais alegria no mundo do que dor. Não podes viver escondido com medo de sofrer, assim nunca conhecerás a felicidade.
Acenei com a cabeça. Deixei que as lágrimas escorressem livremente. Sabia bem que o que Ele dizia era verdade. O sofrimento está por toda a parte. Mas a vontade humana de alcançar a felicidade é mais forte.
– E acredita que de sofrimento percebo eu. Houveram uns fulanos que me crucificaram! – Jesus brincou com a situação, embora mantivesse a expressão pesada. Foi então a vez dele de baixar o rosto. – Seria fácil para mim simplesmente ir embora. Ignorar o sofrimento porque devo passar. E depois? Quem seria eu sem a dor para poder mostrar ao mundo o valor da felicidade?
Sentia-se mágoa na voz dele. Eu concordei com aquelas palavras. Compreendi o segredo da felicidade: O sofrimento faz parte da vida…
Houve um longo silêncio. Quando finalmente nos olhamos, acabamos por sorrir os dois. Bateu-me com as mãos nas costas e perguntou: – Que vais fazer?
– Vou voltar a casa. – Disse-Lhe.
– E o teu passado?
– Não o vou alterar. – Respondi muito mais sereno. – Se alterasse aqueles erros iria acabar por cometer outros. Prefiro viver com as consequências e procurar ser feliz assim. Sem medos.
Ele abraçou-me festivamente, como se comemorasse uma vitória. Eu retribuí e festejei com ele. Também me senti vitorioso.
– Podes deixar-me aqui. – Pediu Jesus. – Está na altura de cumprir o meu destino…
Assim fiz. Os seus olhos profundamente azuis exibiam um certo orgulho. Pelo menos foi assim que interpretei.
Então, depois de Lhe agradecer imensas vezes. Parei a nave e baixei-O perto de um vilarejo, junto a uma estrada.
– Só mais uma coisa! – Falou enquanto o sistema de anti-gravidade O descia. – Quando voltares para o teu tempo, deixa a nave num descampado bem longe de casa e foge dali. Foge o mais rápido possível. É que ela pertence a uns tipos cinzentos, pequenos, cabeçudos, de olhos esbugalhados e com muito mau feitio. Eu trouxe-a sem pedir autorização. Roubei-a, compreendes? Portanto seria chato se eles te encontrassem...
Acenei-Lhe afirmativamente e não deixei de soltar uma enorme gargalhada. O Seu sentido de humor não parava de me surpreender. Foi um conselho muito estranho para terminar aquela aventura. Mas toda ela tinha sido assim, louca, no entanto reveladora.
Por isso concordei e tracei o meu caminho de volta. Estava na altura de voltar ao presente, à minha vida, e fazer dela uma aventura onde o herói sou eu.

António Silva

3 devaneios :

helena frontini disse...

Gostei de ler! Só eu estagnei com o meu e não consigo avançar! Acho que vou desistir, por agora, e depois logo se vê!

v_crazy_girl disse...

Faça uma pausa :D Vai ver que com as férias a inspiração volta! :D

Transcendente disse...

Espero que gostem :)