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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Olhos de Vidro

Autor: Carina Rosa
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 20
Editor: Smashwords, Inc.
ISBN: 9781310975493

Sinopse:
Amanda vive num teatro desde os seus 15 anos de idade e é uma das actrizes mais promissoras da companhia. Ansiosa por esquecer os tempos em que vivia, abandonada, num orfanato, prende-se às personagens que interpreta em cima do palco e é levada à loucura, num apregoar de paz e de liberdade de espírito de uma alma atormentada.
Um conto sobre a linha ténue entre a loucura e a sanidade, onde assistimos às várias facetas do ser-humano e os motivos que levam alguém a perder-se de si mesmo.


Opinião:
Sim, ando numa de contos. Tinha dois contos de autoras portuguesas no kobo e após ter lido o excelente conto da autora Carina Portugal, não resisti a ler outro, desta vez de Carina Rosa. Um livro que tem uma capa simplesmente maravilhosa! Ainda estamos no início do ano novo e já a considero uma das minhas capas favoritas do novo ano.

Amanda é um prodígio teatral. Uma atriz sem igual que encarna todos os personagens que lhe são entregues como uma luva. Ao fazê-lo sente o que eles sentem, sabe o que eles sabem, vive como eles vivem. É sabido que naquele teatro ela é a estrela principal e todos os papéis importantes são automaticamente seus. Além de ser uma pessoa com um grande talento, é a favorita do dono do teatro, um homem que a acolhera quando esta tinha apenas 15 anos de idade e vivia sozinha pelas ruas, tentando sobreviver de todas as formas que conhecia.

Mas a vida do teatro está a destruir a alma de Amanda. Esta começa a desconhecer-se e a perder-se. Não sabe pelo que vive. Não sabe quem é. Cada dia é uma personagem diferente entre o vasto leque de personagens que já havia protagonizado. Um sinal que não passa despercebido a colegas de trabalho e mesmo ao seu adorado chefe…

Antes de mais, mais uma vez, tenho que referir a fantástica capa deste livro! Mesmo maravilhosa, parabéns! De seguida, tenho que dar também os parabéns à autora Carina Rosa, pois, comparativamente a outros dos seus livros, este conto demonstrou uma grande melhoria na sua escrita. Pelo menos eu gostei mais do “tom” presente neste conto do que no último livro eu que eu havia lido. Havia um maior amadurecimento e crescimento e gostei imenso de ler isso.

Relativamente à história em si, achei que a loucura da protagonista estava muitíssimo viva. Sentia-se a sua loucura, desespero e amor. Foram ingredientes que fizeram a personagem e que se sentiram desde o início da narrativa e em cada palavra que Amanda utilizava. Apesar de não ter uma história muito longa ou aprofundada, esta loucura inerente foi o grande ingrediente do conto e foi essa loucura que “o fez”.

Um conto muitíssimo bem feito e em que se sente o desespero e loucura da personagem. Aconselho!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A Ponte das Almas Negras

Autor: Carina Portugal
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 50
Editor: Fantasy&Co.
ISBN: 9781310137884

Sinopse:
Durante mais de um século, Rouco manteve a sua guarda, sob a ponte de uma antiga vila. Algo negro habita-a, escondido entre as pedras degradadas e os líquenes, aguardando a chave da sua libertação. A pequena Aurora, apesar de cega, é a única que tem o dom de as conseguir ver. Contudo essa dádiva é também uma maldição que a persegue.


Opinião:
Admito que não sou muito de contos. Costumo estar muito mais atenta a novos livros de “não contos” do que de contos. Apesar disso, de vez em quando queremos mergulhar numa nova história mas sem que esta nos ocupe muito tempo. Espairecer e deixar por momentos o cérebro noutro local. A autora deste conto apresentou-mo e eu, tento já lido outros dos seus trabalhos, não resisti.

Aurora é uma pessoa solitária. Vive sozinha com a mãe e o seu melhor amigo, um pequeno cachorrinho que a adora mais que tudo, tentando protegê-la de todos os idiotas da aldeia que a tentam atacar e que a gozam. Aurora é cega, ou pelo menos é o que todos pensam. Com os olhos vendados e apoiando-se numa bengala feita pelo falecido pai, tenta ter uma vida normal, mas tal é impossível. Não só devido ao que sofre nas mãos das crianças (e mesmo adultos) da aldeia, mas porque na realidade os seus olhos vêem muito mais do que ela admite…

Rouco é um troll da ponte. A sua missão é guardar a ponte e os espíritos malévolos que lá estão aprisionados. É um troll que fez uma promessa a um estranho homem que fora devolvido ao rio de forma não natural. A promessa de ajudar e proteger Aurora. Uma promessa que está determinado a cumprir.

Para um pequeno conto, esta história está muito gira e extremamente bem escrita. É daquelas histórias que nos prende pela escrita, ambiente, personagens e claro, história. Existe um pouco de tudo, amor, traição, morte, vida. Adorei a personalidade forte de Aurora, apesar de esta se esconder debaixo de um disfarce de menina inocente e sensível. Apesar disso, o cachorrinho e Aurora foi a minha personagem favorita. Apesar de não aparecer assim tanto como Aurora e Rouco, a adoração que este tem pela dona é palpável e houve uma altura no conto que quase comecei a chorar… Rouco também é muito bem caracterizado e compreendemos rapidamente as razões para as suas acções e começamos também a apegar-nos a esta personagem.

Sem dúvida alguma um excelente conto, muito bem escrito e acreditem, não digo isto por conhecer (virtualmente) a autora. Leiam-no! Não se vão arrepender, além de ser gratuito!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Novidade Edição de Autor


Façam download deste conto em https://www.smashwords.com/books/view/501731

sábado, 23 de novembro de 2013

Duas Gotas de Sangue e um Corpo para a Eternidade


Autora: Carina Portugal
Edição/reimpressão: 2013
Palavras: 12 250
ISBN: 9781311355003

Sinopse:
Em pleno séc. XVI, a Inquisição lavra as terras de Inglaterra. Numa aldeia remota, um inocente amarrado à fogueira amaldiçoa todos aqueles que o condenaram à morte. As suas palavras acordam os espíritos da Natureza, e as gémeas Alaina e Leanora pressentem-no. Contudo, o que poderão fazer duas curandeiras para os deter? Além disso, ambas escondem um segredo que as poderá matar ‒ o seu próprio amor.


Opinião:
Para quem não conhece a Carina Portugal, é uma amante de fantasia que adora escrever e que já teve alguns contos seus publicados em antologias e escreve também para o blogue Fantasy & Co. Foi através da mesma que consegui ler o seu conto "Duas Gotas de Sangue e um Corpo para a Eternidade", que se encontra disponível para download gratuito no link acima indicado.

Encontramo-nos numa pequena vila em pleno século XVI, onde a bruxaria era uma sentença de morte e onde muitas vezes inocentes morriam simplesmente por serem acusados por alguém que não gostava deles ou que tivesse medo deles. Foi isso que aconteceu a um curandeiro da pequena vila, que acaba por ser acusado de bruxaria acabando por arder na fogueira. Sentindo-se injustiçado, antes de morrer o bruxo lança uma verdadeira maldição à vila, onde todos aqueles que o acusaram injustamente serão punidos. Para além desse curandeiro, existiam mais duas raparigas também conhecidas pelo seu poder de cura e por estarem constantemente juntas. Essas raparigas eram duas irmãs que se completavam como o ying e yang e que possuíam poderes que acabaram por utilizar para acalmar a maldição que o velho bruxo tinha colocado sobre a vila.

Mas por vezes mesmo a melhor acção pode ser transformada em algo cruel devido ao ciúme e as duas irmãs terão um difícil caminho a percorrer quando o que queriam na realidade era apenas amar e serem amadas.

Este é um livro que não é para qualquer um. De uma forma por vezes directa e outras vezes indirecta, acaba por retratar assuntos que ainda hoje são tabu e juntam estes recentes tabus aos antigos, havendo assim um paralelismo que gostei de ver.

A escrita da autora também é agradável e consegue prender-nos e levar-nos aos sítios por ela narrados o que adorei. O meu grande problema com este conto foi a velocidade a que aconteceu. Não sei, senti falta de aprofundamento das personagens e houve partes da história que achei que aconteceram de tal forma rapidamente que me cheguei a perder. Mas acredito que tal se deva ao facto de ser um conto e não um livro inteiro, porque a verdade é que as ideias estão lá e a escrita também.

É um conto de rápida leitura, que prende o leitor e que recomendo a todos! Quem não conhece a escritora já sabe o que tem que fazer! O link para download está na sinopse, aproveitem e divirtam-se.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Conto "Pele de Escrava" de Carina Portugal


O chicote cortou o ar e encolhi-me por instinto, antes de a ponta estalar a um centímetro da minha mão. O segundo impacto foi certeiro. Gritei de dor e estremeci ao ser atingida na omoplata. O chicote recuou no instante seguinte, contudo não consegui recuperar, pois este voltou a abater-se sobre mim, acertando na chaga em início de cicatrização, um pouco abaixo das costelas. Cerrei os dentes e desta vez abafei o gemido, encolhendo-me mais e baixando a cabeça até a fronte tocar na pedra.
– Mexe-te, filha da mãe. Ou dou-te de comer aos ratos.
Uma mão crispou-se-me nos cabelos e, num só impulso, puxou-me a cabeça para trás. Solucei quando senti a outra mão na minha garganta, os dedos apertando-a de forma a cortar-me a respiração.
– E se te portares bem, irás fazer-me companhia esta noite – silvou-me ao ouvido, bafejando-me o rosto com um odor podre. O aperto no pescoço diminuiu e a mão escorregou-me pelo peito, arrepiando-me a pele. – Estás a arder de desejo por mim, cabra…
Deu-me ainda mais nojo ouvi-lo, mas não me mexi. Apesar de fingir não compreender o que ele dizia, o asqueroso toque dele nos meus seios falava por si.
Por fim libertou-me o cabelo e a minha cabeça pendeu. A cortina de cabelo castanho escondeu-me as lágrimas que começaram a escorrer mal os passos dele se afastaram, levando consigo a ameaça do chicote e de algo que temia ainda mais.
Ergui-me, as pernas tremendo como varas verdes, e apoiei-me no espaldar da cadeira mais próxima. À minha frente, através do espelho preso a uma das paredes da sala, o meu próprio reflexo mirava-me, de olheiras fundas e escuras, enquanto com uma mão palpava os estragos feitos nas minhas costas. Senti a humidade do sangue através do quíton. A ferida reabrira. Amaldiçoei-o em silêncio, amaldiçoei a sua família, a sua casa, o seu país, e amaldiçoei-me. O espelho mostrava-me o esgar horrível que me enrugava a testa e o rio de lágrimas que parecia não querer parar.
Respirei fundo, endireitei-me e limpei o rosto com as costas das mãos. Obriguei-me a sorrir para o reflexo, mas era só um movimento de lábios sem significado para o coração. Suspirei, contudo o reflexo não me imitou. Os lábios moveram-se e consegui ler o que me diziam sem fazer barulho.
“Mata-o, por nós”.
Arregalei os olhos e tapei a boca. O reflexo seguiu-me o exemplo. Por momentos ainda considerei que mexera os lábios sem dar conta, mas o que aconteceu a seguir apagou essa ideia. A cor do rosto à minha frente mudou, os olhos tornaram-se mais amendoados, o tom escureceu, os cabelos encaracolaram. Já não era eu que ali estava. A seguir o corpo adelgaçou-se, o cabelo tingiu-se de cor de palha, o olhar lembrava um oceano profundo. E de súbito era lilás, e a seguir vermelho, e a mulher que me fitava era albina.
Estava a ficar doida, só podia ser isso! Abanei a cabeça e recuei um passo. Sem querer, pisei um dos cacos cortantes espalhados pelo chão.
– Ai… – Levantei o pé por reflexo e baixei o olhar para os restos do jarro de cerâmica que me valera o chicoteamento.
Quando voltei a olhar para o espelho, nada mais havia lá, para além do meu reflexo. Era isso, ele estava a enlouquecer-me.

*

Pouco depois do jantar ele mandou chamar-me. Fingi-me doente. Cambaleei, vomitei a minha parca refeição à sua frente. Repugnado, chutou-me o rosto para longe dos pés dele e, apesar da agressão, nessa noite, tive paz.
– Devias pedir auxílio e encontrar amos que cuidem de ti, antes que ele te mate também.
Ergui o olhar para o sítio onde estaria Guaíl, a velha escrava com a qual partilhava o quarto minúsculo onde as enxergas mal cabiam. No entanto não a conseguia ver por entre a escuridão.
– Ele já matou outras escravas? – sussurrei, lembrando-me dos muitos rostos assustados que me tinham olhado do espelho.
– Nunca foi acusado formalmente da morte de nenhuma, mas antes de ti já teve 12 escravas, e a todas Átropos cortou o fio da vida.
Estremeci e encolhi-me um pouco sob o cobertor puído.
– E tu?
– Eu não sou uma bela escrava. Quando ele era criança, já o meu rosto estava engelhado, as minhas pernas tortas, o cabelo com fios brancos – disse. – Ele não me comprou.
– Alguma delas era albina?
Depois de uma pequena pausa que me deixou expectante, Guaíl respondeu.
– Nárin. Foi a última antes de ti. Lembrava uma ninfa doce.
Não fui capaz de dizer palavra. Fechei os olhos com força e os lábios formaram uma linha compacta. A mensagem delas pairava sobre mim como se implorassem por vingança. Ou seria justiça? Ou antes queriam que eu impedisse que aquilo acontecesse a outra mulher?
O medo corroía-me.
Sonhei com cada um dos rostos do espelho. Reuniram-se à minha volta, entrançaram-me o cabelo, abraçaram-me, como se fossem minhas irmãs. Contudo, quando abriam os lábios sorridentes, a única coisa que diziam era “mata-o, por nós”. Acordei quando uma delas me estendia uma tesoura, cujo reflexo das lâminas me atingiu os olhos. Ao abrir as pálpebras, deparei-me com o Sol a despontar no horizonte. Sem eu dar conta, Guaíl levantara-se já e fora aos seus afazeres.
Inspirei fundo e ergui-me com um gemido. Lavei o corpo com água fria e entrancei o cabelo. Quando estava pronta fui comer um parco pequeno-almoço e dediquei-me às minhas tarefas diárias, ponderando em tudo o que acontecera.
Perto da hora do almoço, enquanto cortava a carne que seria servida, constatei o quão afiada era a faca que segurava, os estragos que faria caso cortasse carne humana. Mas não seria capaz, nunca. E que hipóteses teria de sobreviver? Todos saberiam que fora eu, mesmo que o atacasse durante a noite, enquanto dormia. Talvez devesse aceitar o meu destino, talvez… olhei para a janela, através da qual se via o jardim repleto de flores. Também elas estavam indefesas ao ceifar da vida. Porém algumas deixavam a sua recordação: um perfume de deusa, uma beleza que competia com Afrodite e, lá bem no fundo, com a própria Medusa.
De tarde, tratei dos meus deveres no jardim. Podei as rosas, colhi maçãs, reguei a terra e, no fim, debrucei-me junto ao canteiro das beladonas. Toquei-lhes nas flores. As pétalas eram suaves, de tonalidade lilás. E muitos crédulos não sabiam o que escondiam em si.
– Tão belas quanto tu.
O meu coração quase saltou do peito. Segurei-o com ambas as mãos, não me atrevendo a olhar para trás, ou sequer a responder. Não escutara a sua chegada, apesar de ele estar tão próximo. A mão dele passou por mim e colheu um dos ramos. Ouvi-o cheirá-lo e soltar um suspiro, antes de me agarrar no cabelo com força e prender lá a flor.
– Termina a tua tarefa no jardim, banha-te, perfuma-te. Esta noite não vou admitir desculpas.
Os lábios dele tocaram-me o ombro e estremeci. Ele riu-se levemente e deixou-me com as flores. Fechei os olhos por um momento e respirei fundo. Os rostos mortos reapareceram dentro da minha cabeça, cada sorriso extinto mais belo do que o outro. Se ele me queria bela, ficá-lo-ia só para ele, em honra de quem perecera nas suas mãos.
Colhi bagas, folhas e até partes da raiz da planta, levando-os comigo para a cozinha. Fervi as folhas e usei a infusão para lavar a pele com um trapo, com o cuidado de o líquido não tocar em nenhuma ferida. A seguir, macerei as raízes num almofariz até formar uma pasta, diluí-a um pouco e untei o corpo, principalmente junto aos seios. Guaíl observava-me por vezes, sem nada dizer.
Quando me achei pronta, vesti-me e caminhei até à sala, quase contando os passos. Da entrada espreitei o espelho. Daquele ângulo não devia reflectir nada mais do que a mobília. No entanto, lá estava um reflexo vindo de lado nenhum. Um vulto sem rosto que tentava dispor os objectos, apesar de não o conseguir. Inspirei fundo, ganhei coragem e aproximei-me. Só vi o meu reflexo quando me posicionei de frente para ele. Mordi o lábio inferior e fitei cada recanto do reflexo, como se esperasse encontrar alguém por ali escondido. Atentei na moldura e, pela primeira vez, apercebi-me dos pequenos corpos femininos entalhados na madeira. Deveriam ser ninfas. Que tipo de bruxaria era esta?
Por fim, toquei com os dedos na superfície espelhada.
– Olá – murmurei. – Nárin?
O reflexo tremeluziu. A minha pele curtida pelo sol clareou, os olhos ganharam aquele tom tão raro dos albinos, e o cabelo quase parecia neve.
Sorri-lhe e ela retribuiu-me o sorriso, deixando-me incerta se aquele sorriso seria mesmo o dela. Os dedos tocavam os meus, levando-me quase a jurar que conseguia sentir o seu calor.
– Estão presas aí dentro? Como é que vos posso tirar?
Limitou-se a sorrir, de olhos tristes. Senti-me de mãos atadas, como se aquele sorriso falasse e me dissesse que era impossível libertá-las.
– Mas como é que foram aí ter? – Já esperava não receber qualquer resposta, ainda assim a frustração espicaçou-me, quando ela abanou a cabeça.
Hesitante, Nárin esticou a outra mão, parecendo querer tocar-me o rosto.
De súbito, ouvi passos. Baixei depressa a mão que tocava o espelho e voltei-me para trás. No entanto não vi ninguém. Fui até à porta com passos de lã e espreitei. Estaria alguém a espiar-me?

*

As gargalhadas irrompiam do andron, alimentadas pelo vinho. Sentada sobre a minha enxerga, temia o cessar desse som. Contudo ele chegou de um momento para o outro, sem aviso. Guaíl entrou no quarto, com preocupação no olhar, acabara eu de pôr uma nova camada da loção que fabricara, tentando intensificar não só o perfume como outras propriedades.
– O senhor chama-te. Tem cuidado.
Engoli em seco, escondendo o almofariz, e depois levantei-me com um inspirar profundo. Não o podia temer.
– Coragem, Allyra – murmurou a velha escrava. Era a única que conhecia o meu verdadeiro nome.
Fiz um pequeno aceno e saí. Ele esperava-me sentado na cama. Abri um pouco mais os olhos quando, ao seu lado, o chicote me saltou à vista.
– Não o usarei, se te portares bem – garantiu, de sorriso matreiro nos lábios.
"Coragem" disse a mim mesma.
Deixei cair o quíton aos meus pés, quando estava a menos de um metro dele. Os seus olhos dardejaram-me o corpo, apreciadores. A seguir levantou-se e deu uma volta em meu redor, como um predador que escolhe a melhor zona da vítima para cravar as garras. Agarrou-me por trás e encostou-me a si. As mãos escorregaram-me pelos ombros e seguraram-me os seios, massajando-os um pouco. Contive o vómito, quando o meu estômago se revoltou contra o que estava a acontecer.
Tentei ocupar a mente com outros pensamentos, qualquer coisa. Mas era difícil, e tornou-se ainda mais quando ele, já nu, me puxou para a cama e sobrepôs o seu corpo ao meu. Forcei-me a não fugir e submeti-me.
Pior do que esta noite, só aquela em que os soldados invadiram a aldeia onde morava, assassinaram o meu pai mesmo à minha frente e me capturaram, tal como à minha irmã. Havia tanto sangue em nosso redor, debaixo dos nossos pés descalços, nos nossos pesadelos…
Fechei as mãos sobre os lençóis e deixei-o tomar-me. Se ele viu, ignorou por completo as lágrimas que me fugiam dos olhos.
Usou-me como bem queria, de tal forma que me senti uma boneca. Já nem sequer pensava sobre quando aquilo acabaria, quando ele recuou. Levou uma mão ao peito e tossicou.
– Maldito jantar – murmurou para si. Saiu de cima de mim, sem que eu conseguisse sequer acreditar no que acontecia. Fiquei quieta por segundos, observando-o a sentar-se à beira da cama, agarrado aos joelhos, enquanto inspirava fundo e expirava devagar. O corpo oscilou ligeiramente, antes de ele esfregar os olhos e engolir em seco. – O que é que se passa comigo?
Recuei até à cabeceira, encolhendo as pernas contra o peito. Desinteressara-se de mim, talvez tivesse alguma hipótese de lhe escapar. Sem aviso, ele voltou o rosto para mim, com uma expressão assustadora, de olhos muito abertos. A língua parecia saborear qualquer coisa que tinha na boca.
– Tu tinhas um sabor estranho – notou. – Nunca estive com uma mulher com um sabor assim…
Talvez a minha expressão fosse de culpa, porque ele abriu ainda mais as pálpebras, apesar de, um segundo atrás, eu o ter considerado impossível.
– Veneno… és venenosa, grande cabra – silvou.
Esticou de súbito o braço para mim. Dei um salto para fora da cama e fugi do quarto. Atrás de mim, um jarro estilhaçou-se contra a parede, falhando o alvo por uma unha negra. Quando alcancei a porta principal dei com ela já trancada. Praguejei e mudei de rumo. Por um momento olhei para trás. Ele estava a pouco menos de três metros, correndo como que aos ziguezagues, ameaçando cair a qualquer momento. As palavras entremeavam-se, difíceis de perceber, mas obviamente amaldiçoava-me.
Vendo-a como única saída, parei junto a uma janela e destranquei as portadas de madeira. Preparava-me para saltar, quando ele me agarrou no cabelo, puxando-me. Tombei, embatendo no chão com todo o peso do corpo. Ele não me deu escapatória. Primeiro pontapeou-me nas costelas e, vendo que me encolhia, debruçou-se sobre mim, esmurrou-me, bateu-me com a cabeça no chão e voltou a esmurrar-me, de tal forma que mal conseguia gritar por ajuda. Senti a cabeça prestes a explodir, até a dor horrível se transformar em dormência.

*

Sentia-me leve, como se estivesse num sonho. Devagarinho, abri os olhos. Vários rostos reuniam-se em meu redor, preocupados. Conseguia ver através deles, como se fossem almas do Hades. Mas se fossem de lá, estariam lá, não aqui. Ou era eu que estava lá? Levantei as mãos e contemplei-as. Acontecia-lhes o mesmo que àqueles rostos, era capaz de ver o estranho tecto branco através delas. Ou seria o céu?
– Como estás, Allyra? – perguntou uma jovem albina. Os dedos tocaram-me no cabelo, lembrando o toque da brisa.
– Nárin… Saíram do espelho? – Lembrei-me de súbito do meu amo. – Onde está ele?
– Vê por ti.
Uma delas apontou para a minha frente. Sentei-me devagar e olhei na direcção indicada, através de um vidro mais alto do que eu. Parecia uma janela, pelo menos deste lado.
O meu senhor cambaleava, agarrado ao peito e de rosto muito vermelho. Os nós dos dedos estavam sujos do meu próprio sangue. A cabeça movia-se de um lado para o outro, sem nada ver. Desferiu um murro no ar e, no momento a seguir, tropeçou num banco, estatelando-se. Tentou levantar-se, mas as pernas não lhe obedeceram. Fiquei a vê-lo agoniar, enquanto o veneno fazia o seu trabalho. Não me senti feliz pelo seu tormento, só queria que morresse de vez.
– Acabou – murmurei quando, perante mim, vi a sua alma libertar-se do corpo. – Não magoará mais ninguém.
Entreolhámo-nos. Apesar de tudo, a morte dele não fora o suficiente para nos libertar do espelho.
Ao amanhecer, Guaíl espreitou a sala, deparando-se com o cadáver provavelmente já frio. Ainda assim, verificou se já não respirava. Vi um pequeno sorriso nos seus lábios, ao dirigir-se até ao espelho.
– Agora só falta uma coisa, minhas queridas.
Pegou no banco onde o defunto tropeçara e atirou-o com toda a força contra o espelho. Mal a “janela” se estilhaçou, as nossas almas foram atraídas para o exterior.
– Nunca mais serão escravas de ninguém, a liberdade é vossa – ainda ouvi Guaíl dizer, antes de desaparecer.

Carina Portugal

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Conto "Máquina do Tempo" de António Silva


Fazia um voo baixo a uns dez metros do solo. Era engraçado ver a reacção das pessoas quando viam o meu disco voador aproximar-se. Alguns fugiam em pânico, outros apontavam para o céu com cara de espanto, outros ajoelhavam-se pensando que se tratava de uma manifestação divina.
Os frequentes rebanhos de animais que surgiam fugiam, com a aproximação da minha nave, para desespero dos seus pastores.
Não sabia ao certo em que tempo me encontrava, mas acho que recuei no tempo mais de mil anos e encontrava-me agora a voar algures sobre o Médio Oriente. Não estava muito preocupado com o onde e o quando. Apenas desfrutava a viagem.
Precisava de fugir à realidade, às mágoas do arrependimento e ao sofrimento que me impingiram. Por isso desejei uma máquina do tempo, para poder recuar atrás e corrigir os erros do meu passado. Então, uma noite, acordei sobressaltado com luzes na janela. Levantei-me rapidamente num misto de medo e adrenalina. Seria um assalto? Pensei. Segurei numa faca de cozinha e corri para a porta de entrada.
Mas quando saí para fora lá estava ela. A máquina que tanto desejei, em forma de disco voador prateado. Ouvia-a falar comigo telepaticamente. Como se tivesse consciência própria e me conhecesse bem. Não senti medo, embora não soubesse como foi ali parar nem tão pouco de onde veio. Sabia apenas que era uma coisa de outro mundo e estava ali por mim.
O chamamento era tão forte que não hesitei em entrar. A nave era controlada pelo meu pensamento e por isso, apenas desejei partir. Era uma tecnologia fascinante, parecia que a minha mente se tinha fundido com a própria máquina. Perante a minha ordem levantou voo rumo a um destino longínquo. Não sei para onde. Apenas ordenei que fosse para longe. Assim foi. E desde então tenho vindo a vaguear por tempos e terras diferentes.
Dentro daquele disco voador tinha todas as comodidades de um apartamento de luxo. No centro do aparelho existia uma enorme sala de convívio, com um bar recheado de todo tipo de bebidas, sofás em toda a volta e um gigantesco ecrã que me dava acesso a todos os canais do mundo e à internet. Optei por não usar essas opções, decidi desligar-me mesmo da realidade.
Para descansar, existia um quarto fabuloso que metia inveja a qualquer suite presidencial de um hotel de cinco estrelas. Já a sala de comando era um local mais sério. Sem decorações refinadas, apenas com algumas poltronas onde as informações que a nave transmitia se tornavam mais técnicas. Estudei alguns mapas astrais com rotas para outros mundos. Era um conhecimento espantoso!
Cheguei a viajar até à lua. No entanto, o espaço tem tanto de belo como de assombroso. A vastidão das estrelas é demasiado solitária. Uma solidão tão forte e tão profunda que me assustou. Devido a isso não me aventurei a ir mais longe no cosmos. Voltei para a Terra.
Foi durante aquele voo rasante que o vi. No topo de um monte com o polegar levantado a pedir boleia. Assobiava de forma descontraída. Parecia uma personagem de uma comédia surreal.
A nave parecia conhecê-lo e ele parecia já estar à espera. Decidi então fazer o que a máquina queria. Parei e puxei o homem para dentro através de um raio de tracção que parecia saído de um filme de ficção científica.
Assim que entrou abriu os braços na minha direcção e curvou-se ligeiramente, como um actor que agradece os aplausos. Era uma figura bastante desleixada. Usava uma túnica já bastante gasta e suja. Era moreno, tinha o cabelo comprido e a barba por fazer. A higiene também deixava muito a desejar. Os olhos eram de um exagerado azul intenso, no entanto de uma beleza intensa e infinitamente profundos. Parecia que me hipnotizavam. O mendigo esboçou um sorriso aberto, tal como um velho amigo e abraçou-me.
– Jesus!? – Disse-lhe incrédulo.
– Que foi? Achas que exagerei no azul dos olhos? – Disse-me Ele, em tom gozão, enquanto colocava as suas mãos sobre os meus ombros.
Senti o corpo a ficar dormente. Creio que paralisei naquele momento possuído pelo temor, ou pela emoção… Não sei explicar. Apenas gelei, sem conseguir mexer-me ou falar. Então Jesus estalou os dedos e foi como um acordar para mim. Saí imediatamente do transe e respondi:
– Não é isso. Não estava à espera de Te encontrar... Tu és Jesus! És Deus! Que queres de mim? – Apesar o temor que sentia, existia algo de muito familiar nele. Estranhamente parecia que o conhecia desde sempre. Por isso tratei-O como um velho amigo.
– Não esperavas!? Típico. Era mesmo de prever. Então desejas uma máquina do tempo, ela aparece-te à porta e tu esqueces quem ta enviou! – Repreendeu-me Ele num tom áspero.
– Mas eu perdoo-te. – Respondeu-me logo de seguida retomando o sorriso, de quem estava a brincar.
– Foste Tu que ma enviaste? – Perguntei ainda incrédulo.
– Quem havia de ser! ET’s!? Fartei-me de te ver chorar a queixares-te da vida fechado em casa. Deixa que te diga que parecias uma menina mimada a lamuriar-se. Que espectáculo degradante. Devias ter vergonha.
Baixei a cabeça comprometido. De facto senti-me embaraçado perante aquela descrição.
Jesus, esse, dirigiu-se ao bar da nave e tirou uma cerveja fresca. Perguntou-me se também queria uma. Acenei-lhe que não e Ele continuou:
– Como disse, estava fartinho de te ver choramingar pelos cantos. Por isso, quando resolveste rezar-Me a implorar por uma máquina do tempo, achei no mínimo um pedido original. Por isso e para te calar, decidi enviar-te uma.
– Obrigado… – Respondi envergonhado.
– Só não percebi uma coisa. – Disse Ele enquanto se sentava descontraidamente na sala de comando a beber mais um gole de cerveja.
– O quê? – Perguntei enquanto me habituava à ideia de ter ali Jesus à minha frente. A confidenciarmos como dois amigos.
– Porque não voltaste atrás para mudares o teu passado, tal como desejaste e em vez disso, andaste por aí a passear no tempo?
A pergunta calou-me. Um certo cansaço caiu em cima de mim. Sinceramente não sabia o que responder…
– Não sei... Medo… Cobardia, talvez... É tudo muito confuso. Mas Tu já sabes a resposta, melhor do que eu. Sabes o que penso, o que vai na minha mente magoada, porque me perguntas? – Respondi-lhe como se estivesse numa mistura de consulta de psicólogo com uma confissão a um padre. Uma lágrima começou a escorrer-me pelo rosto e eu limpei-a com a manga.
De forma imprevisível Jesus deu uma gargalhada enorme e disse: – Bem respondido. Embora fujas à questão. Mas confesso que gostei da forma como andas a assustar pessoas com a nave.
Ri-me também. – Sim, tem piada. – Disse.
– Mas já te divertiste bastante. Não podes continuar assim. Está na altura de tomares uma decisão. – A expressão de Jesus mudou. Tornou-se séria, quase repreensiva. Como um pai que aconselha o filho. Senti os seus olhos a penetrar a minha alma. Então perguntou-me novamente: – Porque é que ainda não alteraste o teu passado?
– Tenho medo de reviver aquilo que me fez sofrer. Mesmo que altere o passado, vou-me lembrar de toda a dor que senti. – Respondi, enquanto mais lágrimas me escorriam pelo rosto.
Jesus colocou a mão sobre o meu ombro e esboçou um sorriso. Possivelmente o sorriso mais reconfortante que vi na vida. Pois demonstrou que me compreendia e não me condenava. O desabafo foi como se um peso me saísse das costas.
– Sabes. – Disse Ele, como um sábio que dá um conselho. Afinal de contas Ele era Jesus. Maior sábio não deve existir. – Quer queiramos, quer não, o sofrimento faz parte da vida. Mas também a alegria. E podes acreditar em mim quando digo que há mais alegria no mundo do que dor. Não podes viver escondido com medo de sofrer, assim nunca conhecerás a felicidade.
Acenei com a cabeça. Deixei que as lágrimas escorressem livremente. Sabia bem que o que Ele dizia era verdade. O sofrimento está por toda a parte. Mas a vontade humana de alcançar a felicidade é mais forte.
– E acredita que de sofrimento percebo eu. Houveram uns fulanos que me crucificaram! – Jesus brincou com a situação, embora mantivesse a expressão pesada. Foi então a vez dele de baixar o rosto. – Seria fácil para mim simplesmente ir embora. Ignorar o sofrimento porque devo passar. E depois? Quem seria eu sem a dor para poder mostrar ao mundo o valor da felicidade?
Sentia-se mágoa na voz dele. Eu concordei com aquelas palavras. Compreendi o segredo da felicidade: O sofrimento faz parte da vida…
Houve um longo silêncio. Quando finalmente nos olhamos, acabamos por sorrir os dois. Bateu-me com as mãos nas costas e perguntou: – Que vais fazer?
– Vou voltar a casa. – Disse-Lhe.
– E o teu passado?
– Não o vou alterar. – Respondi muito mais sereno. – Se alterasse aqueles erros iria acabar por cometer outros. Prefiro viver com as consequências e procurar ser feliz assim. Sem medos.
Ele abraçou-me festivamente, como se comemorasse uma vitória. Eu retribuí e festejei com ele. Também me senti vitorioso.
– Podes deixar-me aqui. – Pediu Jesus. – Está na altura de cumprir o meu destino…
Assim fiz. Os seus olhos profundamente azuis exibiam um certo orgulho. Pelo menos foi assim que interpretei.
Então, depois de Lhe agradecer imensas vezes. Parei a nave e baixei-O perto de um vilarejo, junto a uma estrada.
– Só mais uma coisa! – Falou enquanto o sistema de anti-gravidade O descia. – Quando voltares para o teu tempo, deixa a nave num descampado bem longe de casa e foge dali. Foge o mais rápido possível. É que ela pertence a uns tipos cinzentos, pequenos, cabeçudos, de olhos esbugalhados e com muito mau feitio. Eu trouxe-a sem pedir autorização. Roubei-a, compreendes? Portanto seria chato se eles te encontrassem...
Acenei-Lhe afirmativamente e não deixei de soltar uma enorme gargalhada. O Seu sentido de humor não parava de me surpreender. Foi um conselho muito estranho para terminar aquela aventura. Mas toda ela tinha sido assim, louca, no entanto reveladora.
Por isso concordei e tracei o meu caminho de volta. Estava na altura de voltar ao presente, à minha vida, e fazer dela uma aventura onde o herói sou eu.

António Silva