Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Pessanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Pessanha. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A Devota e a Devassa

Autora: Fernando Pessanha
Edição ou reimpressão: 2015
Editor: 4águas Edições
Páginas: 68

Sinopse:
Breve novela picaresca passada na centúria de setecentos, nos conturbados anos em que governantes como o Marquês de Pombal ou a rainha D. Maria I regeram a História do infeliz reino, dá-nos a conhecer, em breves e geniais pinceladas, a sociedade e o país, as gentes e as representações sociais da época. Oferece-nos breves apontamentos de eventos perdidos na memória que, para além do interesse histórico/cultural, nos enriquecem e ajudam a entrar no espírito da época, como são os casos dos deliciosos apontamentos sobre a "Guerra Fantástica" na Europa, as "Novas Conquistas" na Índia ou a "Guerra dos Doidos" em Timor...


Opinião:
Já tinha este livro há algum tempo comigo, só que infelizmente, devido a uma série de eventos (desde férias a falta de tempo) não tinha tido ainda tempo para ler. Mas finalmente consegui agarrar neste livrinho e li-o de uma só vez.

Sendo um livro pequenino, ou como o próprio autor diz uma novela breve, não vos vou fazer um pequeno resumo sobre o mesmo, mas posso dizer que este livro é uma novela sobre a relação entre D. Amélia, D. António e D. Nuno. D. Amélia é uma mulher extremamente religiosa, casada com D. António que nutre por ela um carinho enorme, respeitando assim todos os desejos e caprichos da sua mulher, por muito loucos e exagerados que estes sejam. Já D. Nuno é um homem do mundo, habituado a ser adorado especialmente pelo sexo feminino, algo que D. António muito admira neste seu amigo.

É um pequeno livro que no final me deixou de boca aberta, escrito de forma posso dizer poética e melodiosa. É uma narrativa que se lê rapidamente e que permite ao leitor passar um bom bocado. Eu gostei imenso e recomendo este pequeno livrinho a quem quer ler algo diferente e português.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Hotel Anaidaug

Autor: Fernando Pessanha
Edição/reimpressão: 2013
Páginas: 22
Editor: 4 Águas
ISBN: 9789898702005

Opinião:
Um livro pequeno, diferente e especial. Este é um daqueles livros que se lêem em apenas alguns minutos e que ficamos a pensar na história mesmo após sabermos o final. É uma história de fantasia negra e fantasmas, que começa como qualquer outra mas com um pouco de terror à mistura, tomando um rumo diferente daquilo que inicialmente esperamos. Acho que este pequeno conto seria uma introdução perfeita para muitas outras histórias, notando-se bem o jeito que o autor tem para a escrita e, a sua grande imaginação. É um conto que quem não conhece Fernando Pessanha deveria ler, decidindo assim se este seria alguém a seguir ou não. Aposto que escolheriam a primeira opção, pois é sem dúvida um conto que deixa água na boca.

domingo, 16 de novembro de 2014

Encontros Improváveis

Autor: Fernando Pessanha
Edição/reimpressão: 2013
Páginas: 86
Editor: Edições Mandil
ISBN: 9789899808850

Sinopse:
Havia, na dissimulação do seu olhar, a expressiva indiscrição da curiosidade, Bernardo sentiu aquele olhar colocado em si e ficou atento aos seus movimentos. Continua a escrever, inspeccionando pelo canto do olho a gracioso silhueta da mulher. Teria uns trinta anos, o que lhe trouxe à memória a obra de Honoré de Balzac. Era elegante e de altura mediana, com o cabelo liso escuro e escorrido que quase lhe chegava aos ombros. Atreveu-se a levantar a cabeça e olhá-la sem reservas, enquanto gesticulava a caneta por entre os seus dedos, como se estivesse a ponderar que a frase escrever a seguir. Aparentemente, ela tinha voltado à leitura, apresentando a mesma expressão de estranheza estampada no rosto. Não... olhou-o uma vez mais e os seus olhares acabaram por cruzar-se. Tinha uns familiares olhos felinos, de cor indefinida, algures entre o cinzento e o verde, e os lábios finos e bem desenhados. Esboçou um sorriso indecifrável, pelo que Bernardo voltou a baixar os olhos e a escrever no seu caderno. Não chegou a escrever muito mais, pois sentiu a mulher descruzar a perna, levantar-se e estacar à sua frente.


Opinião:
Antes de mais, muito obrigada ao autor Fernando Pessanha por me ter feito chegar este pequeno livro às mãos, com diversos contos que acabam por se cruzar de uma forma muito estranha e interessante. Admito que antes de o autor me referir que já tinha publicado outros pequenos livros, não fazia ideia que para além do livro publicado pela Coolbooks (chancela de ebooks da Porto Editora), existiam outros títulos do autor. Livros de ficção e até mesmo de não ficção. Foi assim, graças ao autor, que me chegaram dois pequenos livros em mão, com dedicatórias muitíssimo simpáticas e este é um desses livros.

Não vou fazer um pequeno resumo como costumo fazer pois o especial deste livro são as pequenas surpresas que nos surpreendem ao longo da narrativa. A escrita do autor neste livro é mais vivida e até mesmo mais interessante comparativamente ao outro livro que li do autor. Apesar de serem estilos totalmente diferentes, o que acaba por provar que este é um autor que consegue escrever com grande diversidade, a escrita prende o leitor e não quis largar o livro até compreender como é que todos os pequenos contos se acabavam por interligar.

Sim, porque inicialmente as histórias parecem não estar relacionadas, mas começamos a compreender que não é bem assim e adorei como o autor as conseguiu relacionar e demonstrar os diferentes lados de cada personagem e cada ação que estas tomavam, ações essas que podiam prejudicar uma pessoa mas também podiam ajudar outra.

Sem dúvida um pequeno livro que se lê rapidamente e gostei mais do que pensava. Experimentem ler os outros trabalhos do autor, vão ver que irão gostar.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Entrevista a Fernando Pessanha

 
Fale-nos um pouco sobre si.
É sempre desconfortável e potencialmente pretensioso falarmos de nós. Prefiro que sejam os livros e a música a fazê-lo por mim.

Como entrou a escrita no seu dia-a-dia?
Sorrateiramente. Escrevo para mim desde tenra idade, sem qualquer tipo de aspiração literária. Comecei a escrever contos em criança. Curiosamente, a minha professora da escola primária – pessoa de suspeitas capacidades pedagógicas - rasgava as minhas composições alegando terem sido preparadas em casa, pelos meus pais… O acto de escrever passou a ser mais frequente e consistente durante os tempos da universidade. A licenciatura em Património Cultural e o mestrado em História do Algarve – cursos de letras - implicaram, desde logo, uma atenção redobrada para com a escrita, não estivéssemos a falar de ciências humanas e sociais… A literatura de ficção surgiu como escape à investigação e produção historiográfica.

Como se sentiu ao tornar-se, pela primeira vez, um autor publicado? E quando teve o apoio da Coolbooks, a chancela de ebooks da Porto Editora?
É sempre uma emoção ver o primeiro livro publicado. No meu caso, foi a 4Águas Edições, através da chancela Edições Mandil, que publicou o meu primeiro trabalho: A Cidade Islâmica de Faro. Foi um trabalho que visou assinalar os 1300 anos do início do domínio islâmico na capital do Algarve e que teve o apoio da Direcção Regional da Cultura do Algarve, Câmara Municipal de Faro e da Associação Faro 1540. Lembro-me da grande satisfação que senti quando o Fernando Esteves Pinto, o editor da 4Águas, mostrou-me o livro no regresso da sua participação num congresso internacional de literatura ibero-americana. Na altura nunca poderia imaginar que, nos anos seguintes, seria eu - com a sua ajuda - a apresentar o Encontros Improváveis e o Hotel Anaidaug em congressos internacionais de literatura ibero-americana, nomeadamente, no Edita Lisboa / Punta Umbria e no Salón del Libro Iberoamericano de Huelva…
No que se refere à Coolbooks, o contacto surgiu aquando da ideia para a criação de uma chancela digital para a Porto Editora. O Pianista e a Cantora foi uma das seis primeiras obras a serem editadas pela nova chancela e permaneceu durante algumas semanas no TOP 10 de eBooks, da Wook. Presentemente encontra-se a ser apresentado, havendo já um conjunto de sessões marcadas para Portugal e Espanha. A próxima apresentação será já no próximo dia 25 de Setembro, na Biblioteca Provincial de Huelva (Andaluzia), estando a apresentação a cargo do escritor espanhol Diego Mesa, o coordenador da Aula José Saramago.

Identifica-se com alguma das suas personagens?
É uma pergunta curiosa e de difícil resposta. Identifico-me, em certa parte, com todas… e, por outro lado, não me identifico com nenhuma. Lembro-me de uma observação feita por José Bivar aquando do ciclo de apresentações do Encontros Improváveis. Segundo o supracitado, todas as personagens do livro eram, no fundo, alter egos meus. Na altura achei aquele comentário muito interessante e até me imaginei a falar dessas personagens, deitado no divã do consultório da Drª Cláudia Fontana, a psicóloga (personagem) desse livro… Talvez um dia escreva uma estória sobre esse encontro improvável…

Quais são as suas referências e inspirações enquanto escreve?
A inspiração é o mundo que nos rodeia. Nós somos fruto das experiências e da matéria empírica que nos corporiza e isso acaba, inevitavelmente, por reflectir-se na produção literária. No meu caso, particularmente, a História e a música assumem papéis preponderantes, pois a minha condição de Historiador e pianista assim o determina. Não são, portanto, inocentes as referências musicais em livros como O Pianista e a Cantora, Hotel Anaidaug ou Encontros Improváveis. Numa entrevista feita pela Canal Sonora, perguntavam-me se eu seria um escritor diferente se não fosse músico. Na altura respondi que para um músico torna-se relativamente fácil descrever estados de espírito e ambientes recorrendo à linguagem musical. Uma imagem pode traduzir mil palavras. O mesmo acontece com o som… Quanto a referências literárias, são tantas que se torna difícil enunciá-las. De Franz Kafka a Henry Miller, de Sandor Marai a Philip Roth, de Paul Bowles a Allan Poe… são tantos os escritores que me marcaram que seria injusto enumerá-los.

Qual é que acha que é o papel da blogosfera em geral na divulgação literária?
Pergunta difícil. Eu próprio tenho um Blog, Intento Memoriam, onde pontualmente partilho alguns dos artigos de carácter historiográfico que vou publicando nos órgãos de comunicação algarvios. Porém, confesso que não lhe dou grande atenção nem sou grande entendido nem conhecedor da blogosfera. Seja como for, tenho a impressão que é muito difícil conseguir “tempo de antena” em blogs dedicados à crítica literária e que nem sempre as apreciações tecidas às obras são as mais justas.

Tem recebido feedback dos seus leitores, tanto do livro lançado pela Coolbooks como dos restantes escritos por si?
Sim, por vezes recebo feedback por parte dos leitores. A página de O Pianista e a Cantora, na wook, está cheia de comentários calorosos, o que é para mim motivo de grande regozijo. No que se refere à História também não me posso queixar. Ainda há pouco tempo, durante a apresentação de Os mouriscos nos Algarves Portugueses…, num congresso internacional de História, em Tânger, fui convidado a apresentar o mesmo estudo na Universidade de Rabat, na capital de Marrocos. Não me posso, portanto, queixar de falta de feedback, tanto no domínio da literatura de ficção como no domínio da História…

Tem algum plano literário para o futuro? 
Os planos são vários, ainda que as condições não sejam as mais favoráveis. Nas próximas semanas irei publicar um novo trabalho intitulado Subsídios para a História do Baixo Guadiana e dos Algarves Daquém e Dalém-mar. Trata-se de um compendium que reúne 50 artigos de carácter historiográfico publicados, anteriormente, em diversos órgãos de comunicação algarvios. Em Novembro também irá sair um outro trabalho relativo à minha participação nas últimas Jornadas de História de Ayamonte, intitulado “V centenario de la fundación de Arenilha y sus relaciones com Ayamonte”. Relativamente a literatura de ficção, irei publicar em breve um conto intitulado O Sétimo Céu e as Meninas de Tânger, numa antologia de escritores do Algarve que será editada pela 4Águas Edições. Para além disso, traduzi há pouco tempo um trabalho do escritor espanhol José Luis Piquero, originalmente intitulado Mi Psicopata. Esta tradução será publicada em Portugal nos próximos meses.

sábado, 24 de maio de 2014

[Quote] O Pianista e a Cantora



"Foi inevitável lembrar-me da cantora, como se, de uma forma absurda, também lhe estivesse a ser infiel... O mais irónico é que eu nem acreditava na fidelidade."

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Pianista e a Cantora

Autor: Fernando Pessanha
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 232
Editor: Coolbooks (aqui)
ISBN: 978-989-766-003-0

Sinopse:
«Toca-me, pianista, toca-me como se eu fosse o teu piano…»
O Pianista e a Cantora é um romance em que vários géneros literários confluem num universo onde a música, o erotismo, a História e as viagens andam de mãos dadas.
Trata-se da história da intensa relação entre um pianista talentoso e boémio e uma cantora sensual e misteriosa. Subjugado pelo encantamento da cantora, o pianista inicia uma viagem por Marrocos, na companhia da esposa. Porém, o inesperado convite para um trabalho trá-lo de volta a Portugal e à enigmática personagem.
Num ambiente pautado pela existência de personagens estranhos e onde a arte e o sexo se apresentam como indissociáveis, o pianista apercebe-se de que a complexidade das relações humanas e sociais pode, por vezes, roçar o sobrenatural. Mais: acaba por concluir que é preferível algumas perguntas permanecerem sem resposta…


Opinião:
Gostei muito da capa deste livro assim que a vi. Não conhecendo o autor e nunca tendo lido nada do mesmo, a capa foi sem dúvida alguma o que me prendeu a curiosidade. É uma capa sensual e sexual, que desde imediato aponta um pouco para o cariz do livro, que acaba por transmitir ambas as vertentes.

O Pianista é um homem apaixonado, habituado aos olhares de mulheres que o cobiçam e que este acaba por cobiçar, não fosse um mulherengo. Mas há uma que desde logo lhe capta a atenção e impede de pensar noutras mulheres. Célia é uma mulher belíssima, de longos cabelos negros e um corpo escultural que prende a atenção de todos os homens por quem passa, criando ciúme nas mulheres que a encontram. Ambos são casados, mas os seus caminhos acabam por se ligar por uma química imediata que sentem um pelo outro ao se verem e ao ouvirem as habilidades artísticas de cada um. Célia é uma cantora maravilhosa e o pianista acaba por querer estar com ela pessoalmente e até mesmo profissionalmente, de forma a poder admirar o seu dom sem qualquer problema.

Mas ambas as personagens são casadas. A cantora com um homem orgulhoso e controlador, para quem tudo e todos giram à volta da esposa, e o pianista pela sua melhor amiga, um casamento que decide que tem que salvar, sendo que para isso, de uma forma impulsiva, parte com a esposa para Marrocos. Mas o pianista tem uma mente sonhadora e nada nem ninguém se conseguira colocar no meio desse seu sonho, da sua cantora.

Antes de mais parabéns à Porto Editora pela criação desta nova chancela de autores portugueses. Uma chancela com um preço chamativo e cheia de autores nacionais. Para mim apenas tem um contra, ser apenas possível a obtenção do livro em ewook, pois eu tenho um kobo e dessa forma não posso passar o ewook para o meu ereader, pois por este ser um kobo, o formato do ebook é incompatível, o que me levou a algumas dificuldades na leitura do livro. Mas pode ser que no futuro a Porto Editora trate desse pequeno contratempo, que não me impediu de todo entrar no ambiente apresentado pelo livro.

Mas passando para a crítica ao livro em si, devo admitir que após a leitura deste livro, melhor deste ebook, fiquei com alguns sentimentos contraditórios. Achei a relação do pianista com a cantora algo não parecido com amor, como o autor nos quer fazer crer, mas algo mais como paixão. Uma paixão momentânea e carnal, nada relacionada com amor. Para mim o amor é algo que se controí e que tem que crescer e não um simples "olhei para ela e ela era lindíssima, é amor", como o que aconteceu no livro. Os sentimentos do protagonista masculino do livro chegavam a ser confusos, ora admitia que apenas sentia amizade com a esposa, ora admitia que a amava. Depois dizia que apesar de tudo nunca a iria envergonhar e mesmo assim ia atrás de todo o rabo de saia que se cruzava no seu caminho. Foram sentimentos demasiado contraditórios, e achei que a exploração sentimental do protagonista merecia uma base mais sólida.

Apesar desse problema, que me fez confusão ao longo do livro, o autor tem uma escrita excelente, que me conseguiu prender do início ao fim. É uma escrita simples e fluída que acaba por criar uma ligação com o leitor, o que leva a que este queira continuar a saber o que irá acontecer ao mulherengo e alcoólico pianista ao longo do livro. Este último ponto, o da bebida, era algo que teria adorado ter visto desenvolvido, pois notava-se bem ao longo do livro que o protagonista tinha um sério problema com a bebida, que era por vezes referido, mas nunca foi desenvolvido.

Adorei as referências às histórias por trás de inúmeras músicas clássicas, o trabalho de pesquisa do autor relativamente a estas está muito bem conseguido e por isso, os meus parabéns. Também adorei as referências a Marrocos e a outras cidades adjacentes, e visto que metade da ação do livro se passa nestas cidades, as descrições dos locais e da cultura esta muitíssimo bem descrita. Notou-se ao longo de todo o livro que o autor realizou uma pesquisa aprofundada de diversos assuntos, desde mitológicos, musicais a culturais e a escrita é muito boa, prendendo o leitor. O meu grande problema, como referido, foi a construção psicológica da personagem principal, sendo que muitas das suas ações, desde traições à sua esposa à sua louca paixão injustificada, criaram em mim um sentimento muito parecido com o ódio, pois achei a personagem muito imatura para a sua idade e experiência de vida.

Um autor que me surpreendeu e que espero continuar ouvir falar, pois se ultrapassar aquele problema do personagem principal, sem dúvida alguma que irei simplesmente adorar o seu próximo livro! Recomendo!